sexta-feira, 10 de julho de 2009

tu aceleras o passo. eu, o pulso.

© Paulo Alves | 2009
vê como fecho as pálpebras fatigadas sobre as minhas retinas laceradas.
vê como resvalo para o inconsciente, pouco a pouco. 
e se penso em parar é mais um pensamento que fica no ar.
preferia outro verão. 
ouve-me.
(tu aceleras o passo.
eu, o pulso.)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela.

Se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo
para te ver melhor o rosto que me enche de bravura e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela por isso os escolho sempre tenho os olhos feitos à medida da tua cara e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual a visão não me serve de nada vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco é desfocado é esbatido e sem chama e sem cheiro contigo cheira bem sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero porque se não fosse todo eu era falso cada falso que há aí merecia cadeia ou morte mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade e só te quero a ti e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente com o céu mais estrelado com a lua mais cúmplice com os gestos mais carinhosos e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso e vou para te beijar mas não o faço hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez e eu deixo para eles não chorarem muito
João Negreiros in “a verdade dói e pode estar errada”

terça-feira, 7 de julho de 2009

eu e tu somos particulares.

© Paulo Alves | 2009
somos simétricos.
e, agora, inamovíveis.
a par da necessidade da extorsão
resta-me este entretém: a prosa.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

comove-me a dor da despedida.

© Paulo Alves | 2009

comove-me a dor da despedida,

mas estou cansado de todas as palavras.

sinto que largaste a minha mão,

vejo que o teu vulto separa-se do meu,

sei que escolheste dobrar o caminho.

sem uma palavra,

sem um som,

abraço-te por dentro.

a minha alma ainda estava povoada de tantos sonhos.

sábado, 4 de julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender.

© Paulo Alves | 2009   

quarta-feira, 1 de julho de 2009

quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia.

Todo o amor que nos prendera Como se fora de cera Se quebrava e desfazia. Ai funesta primavera, Quem me dera, quem nos dera Ter morrido nesse dia. E condenaram-me a tanto, Viver comigo o meu pranto, Viver, e viver sem ti, Vivendo sem no entanto Eu me esquecer desse encanto Que nesse dia perdi. Pão duro da solidão somente o que nos dão a comer. Que importa que o coração Diga que sim ou que não Se continua a viver. Todo o amor que nos prendera Se quebrara e desfizera, Em pavor se convertia. Ninguém fale em primavera, Quem me dera, quem nos dera Ter morrido nesse dia.
Amália Rodrigues ( poema de David Mourão-Ferreira)

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